quinta-feira, julho 16, 2015

OS BRASILÍADAS


As urnas e os cagões assinalados
Que da socialista praia brasiliana
Por seres nunca de antes candidatos
Passaram ainda além da mente insana
Com Levys, Dilmas, Eduardos e Everaldos
Aécios e Marinas e Lucianas
E entre gente boboca soltaram
Novo peido, que tanto respiraram
No mercado, chega a minha vez de pagar e não havia ninguém no caixa. De repente, ouve-se um grito ao longe:
- Bundinha, tem cliente esperando!
Ser atendido por alguém que se chama "bundinha" não pode ser um bom sinal para o ano que acaba de começar...

DE COMO A CONVERSA ALHEIA PODE APRESENTAR ALTO ÍNDICE DE PERICULOSIDADE


Entra uma senhora extremamente gorda no metrô. Vinha conversando em altos brados com a amiga:
- "Menina, a festa foi linda! Só tinha fantasia 'manera'! Eu fui de 'Coelhão' e meu marido de Zorro!"
Agora me respondam, é ou não é altamente perigoso escutar coisas desse tipo? Eu escapei, mas vai que alguém imagina a cena? Atirar-se-ia com ímpeto e braveza desmedida aos trilhos no exato momento em que o metrô se aproximasse. O mundo pode ser trágico...
Uma crise renal é quase tão dolorosa quanto uma crise econômica.
"A sede é o estado líquido da fome".
Será que essa pessoa que me disse ser muito fã de "Woody Alien" é um terráqueo?

A ARTE DE EXPLICAR


No Subway, o rapaz que estava atrás de mim na fila faz a sua recomendação ao atendente:
- Por favor, coloque pouca cebola, mas não muita.
Gosto de quem sabe explicar bem o que quer...

MODA FÚNEBRE


No restaurante, duas mulheres sentam-se próximas a mim e iniciam uma sinistra conversa:
- Ai miga, semana passada fui ao enterro do Renatinho. Ele tinha uma boa situação, né? Só tinha gente chique! E o arranjo de flores no túmulo? Tão bonitinho! Miga, você precisava ter visto...
Levantei-me na mesma hora, ainda que não tivesse terminado de jantar. Afinal de contas, se a conversa delas começou desse jeito, melhor seria evitar o desfecho...

MEDITÇÃO TRANSCENDENTAL


Hoje na hora do almoço tive a minha primeira experiência com a meditação. Depois de fazer meu pedido, reparei que o senhor da mesa ao lado emitia, de olhos fechados, o seguinte som:
- Ommmmmmmmmmm...
Quando decidi me levantar e procurar um lugar menos místico, eis que chega a garçonete com o pedido dele, que sai do transe e diz:
- Haja paciência!Que demora! Só mesmo com um mantra para agüentar esperar!
O homem recebeu a quentinha e foi embora, deixando relaxados e felizes todos aqueles que ficaram. Concluí que, de certa forma, o mantra foi eficaz...
P.S: Antes as situações ridículas eram uma exclusividade do Metrô Rio, agora se expandiram para os meus almoços. Começo a ficar preocupado com meu futuro.

LÓGICA DA PROGRAMAÇÃO DO AMOR


É quando o seu coração byte em algoritmo acelerado

INDEPENDÊNCIA FINANCEIRA


Uma senhora grita com o marido pelo celular:
- "53 anos já é bem grandinho, né? Quer ter carro, casa de praia, quer sustentar as amantes?" - aqui a voz se elevou um pouco - "Quer bancar tudo isso? Tudo bem! Tudo bem! Mas tem que ter dinheiro, meu amor, dinheiro! Eu não te banco mais, Dagoberto, não te banco mais! Entendeu?"
Nada como a desgraça alheia para me mostrar o quanto sou feliz.

COMIDA BARATA


Na pastelaria - chinesa, é claro - peço um salgado e reparo em um movimento estranho dentro do ketchup. Indignado, aviso ao atendente:
- Meu senhor, há uma barata dentro do ketchup!
Ele, ainda mais indignado e temendo um alarde, leva o dedo indicador aos lábios e me repreende discretamente:
- Shhhhhhhhhhh!
Será que na China é assim?

MOTOBOY LEGAL


Um grupo de motoboys conversa amenidades e de repente um deles resolve se destacar:
- "Agora vô esculachar vocês, vô tirá minha habilitação..."
Segui, feliz, para o metrô.
No elevador, um homem me pergunta:
- Campeão, sabe em qual andar fica a clínica?
Eu sabia, mas disse que não. Odeio ser chamado de "campeão".

A ARTE DA COMUNICAÇÃO


No bar, fizemos a seguinte pergunta:
- O que tem para beber sem ser refrigerante?
A atendente responde:
- Sem ser refrigerante? Coca-cola, Guaraná, Pepsi e Fanta.
Saímos de lá satisfeitos com o lanche, mas com sede.

DA DISCRIÇÃO E DE SUAS FUNESTAS CONSEQÜÊNCIAS


Metrô lotado. Pessoas conversando aos berros. Todas as condições para que algo inusitado ocorresse estavam preenchidas. Começo a suar frio e então ouço uma senhora berrar no telefone:
- "Karina, você tem que contar a verdade pro seu marido. Tonhão vai te perdoar, se preocupa não! Diz que você ficou com o primo dele só por vingança mermo! Eu até encontrei ele hoje, mas não falei nada porque eu sô discreta e não quis SE meter!"
Tive pena do tal de Tonhão. Por conta da amiga discreta teve seu infortúnio revelado a todo o vagão do metrô, coroado por uma eloqüencia invejável. Prometo não contar a ninguém...

ATIVIDADE PARANORMAL


Minha TV ligou sozinha às 3 da manhã. Sim, o volume estava bem alto. O susto foi tamanho, que por alguns segundos tentei desligá-la com o celular, achando que fosse o controle remoto.
Acho que preferiria se o defeito fosse não ligar mais.
E o porteiro me responde:
- O aluguel eu não sei, mas o condomínio tá 400 reais. Aqui na região tá tudo nessa faixa etária.
Eu não queria morar lá mesmo...

QUANDO OS BONS MODOS PREVALECEM


No elevador, uma mulher me pergunta:
- Para ir ao vigésimo andar eu aperto o vinte, né?
Automaticamente pensei em dizer:
- Não, não aperte o vinte. Sugiro que aperte o botão de número dez e complete o resto do trajeto de escada. Você está muito gorda.
Mas eu apenas sorri e respondi que sim.

VIAGEM INSÓLITA


O mendigo, que usava uma camiseta muito colorida e longos dreads como cabelo, se dirige a mim e diz:
- Cê pode ajudar um irmão psicodélico?
Preciso revisar minha árvore genealógica.
Quem usa a expressão "deu ruim" merece que nada dê certo em sua vida.

TRAGÉDIA DE FIM DE TARDE


Caminhava tranqüilamente quando ouvi uma conversa sinistra logo atrás de mim:
- ... eu meto a faca logo, sem dó, comigo não tem essa...
Assustei-me e pensei: "estou ferrado, vou ser assaltado e esfaqueado nessa rua horrorosa. Que fim trágico". Olhei para trás, na intenção de encarar de frente o funesto desfecho, quando percebi que eram dois médicos conversando.
Que Deus me dê saúde. Sempre.

O COLAPSO DO CAPITALISMO


O vendedor olha para mim e diz: - Está faltando dinheiro.
Indignado, retruquei: - Como assim? Estou esperando que me dê o troco!
Ele desceu o tom de voz e respondeu envergonhado: - Exatamente. Está faltando dinheiro para que eu lhe dê o troco.

BELA MANHÃ DE DOMINGO


- "O carro da FRUTA está na sua rua. Pode chegar, freguesa. Tem banana, tem maçã, tem OVOS..."
Você consegue imaginar uma maneira melhor de despertar no domingo?

EVITANDO O DESPERDÍCIO


O sujeito me pergunta:
- E aí, mané? Quando que a gente pode jogar uma conversa fora?
Respondi que nunca. Eu sou lá homem de jogar conversa fora?

QUESTÃO DE POPULARIDADE


O mendigo passa e me cumprimenta de maneira informal:
- Opa, bom dia! Tudo bem cuntigu?
E olha que nunca lhe dei uma moedinha sequer.

DA ESPERANÇA E DE SUA IMPRESSIONANTE FRAGILIDADE


Havia uma fraca esperança de que ainda pudesse chegar a tempo. Corri o quanto pude, peguei o ônibus e torci para que o trânsito não estivesse dos piores. De repente, o motorista freia bruscamente no meio do trajeto e diz:
- Alguém pode me ensinar o caminho? Sou novo nesta linha e só decorei até aqui.
Bom mesmo é estar convicto. Chegaria atrasado.

POST QUE TRATA DA CRIATIVIDADE GERADA PELA IMPACIÊNCIA


Fiquei interessado em um apartamento e agendei uma visita. Chegando lá, sou recebido com a terrível pergunta: - Você veio visitar o apartamento?
Respirei bem fundo para não utilizar uma das três alternativas que passaram por minha cabeça:
1. - Não, vim visitar a minha mãe. Ela está?
2. - Não, já vim direto para morar. Gostei muito da descrição feita no anúncio, sabe?
3. - Não, vim visitar a senhora. Achei que estivesse precisando de companhia.
Mas eu apenas sorri e disse que sim. Não, eu não vou morar lá.

PROFISSÃO PERIGO


- Quanto te pagam? - Perguntei irritado.
- Como assim? Do que tu tá falano?
- Não se faça de desentendido. Eu sei de tudo. Quanto te pagam?
- Você é louco. Vou embora daqui. - E saiu mais irritado do que eu.

E ainda não foi dessa vez que consegui descobrir quanto recebem as misteriosas pessoas que ocupam os sofás das livrarias.

AMOR DE MÃE


Na Avenida Passos, centro do rio, uma senhora desabafa com a amiga em tom de indignação:
- Miga, ele é assim mermo! Ô criatura "rúim"! Parece até minha filha!
Daí surgiu uma fina reflexão: o amor e o ódio são bons vizinhos.
Tudo bem, a reflexão não é tão fina assim...

A VOZ DA COMPETÊNCIA


Entro no mercado e vejo o locutor da loja, devidamente uniformizado, anunciar diversas promoções e produtos. Mais para o fundo do estabelecimento, ouço dois funcionários conversando:
- Esse maluco aí que contrataram só fala merda... já anunciou três produtos que nós não temos aqui...
Ainda bem que encontrei tudo o que procurava.

POST EM QUE SE EXPÕE A TEORIA DA FILANTROPIA INVOLUNTÁRIA


Sempre pratiquei boas ações. De tal forma o hábito ficou incutido em minha personalidade, que passei a praticá-las de forma inconsciente. Neste ano, por exemplo, fui um grande doador de guarda-chuvas. Todos receberam um exemplar, não fiz restrição alguma: restaurantes, repartições públicas, instituições de ensino e agora mesmo acabei de deixar um no Subway.
São tratados como itens que devem fazer a primeira e derradeira viagem.
Não quero culpar a minha fraca memória, então chamo de altruísmo, autossacrifício (até porque a viagem de volta muitas vezes é feita sob intensa chuva).

O fim do post, na falta de uma idéia mais criativa, vai com uma sugestão de cunho moral: pratique boas ações.

QUE ILUSTRA BREVEMENTE DOIS PONTOS; PRIMEIRO, A FORÇA DAS CIRCUNSTÂNCIAS, E, SEGUNDO, A FRAQUEZA DO APETITE


No restaurante, vejo um velhinho caminhando com certa dificuldade. Vinha amparado por uma jovem moça. Dirigiram-se para uma mesa próxima a minha e começaram uma funesta conversação:
- Minha querida, - disse ele - eu sofri o diacho durante todos esses anos em que estive na prisão. São as circunstâncias da vida, sabe? Mas não, não me arrependo de nada. Eu sei que agi por amor, entendeu? Por amor! Você não conheceu a minha esposa, mas se a tivesse conhecido me daria razão. Aquela lá, só matando mesmo...
Solicitei ao garçom que cancelasse o pedido de sobremesa para evitar ouvir o desfecho. Ele estranhou, mas aleguei - com razão - já estar satisfeito.

DA OPORTUNIDADE PERDIDA E DE SUAS CONSEQÜÊNCIAS


Entro no metrô e, como não era mais hora do rush, encontro um lugar para sentar. Fiquei feliz pela oportunidade de seguir viagem lendo um livro. Mal concluí esta bela reflexão, vi uma bela mulher com lindos cabelos cacheados e torci para que viesse sentar ao meu lado. Ao invés disso, um sujeito com cara de maçã apareceu não sei de onde e ocupou o lugar que era dela de direito. A situação ficou pior quando ele se dirigiu a mim, deixando-me impressionado pelo uso abusivo do fonema "t":
- Tá tudo tranqüilo? Te falar, tô tentando tirar uma sonequinha aqui, se tu tiver que saltar, tu me acorda, tá?
E dormiu. Como tudo o que é ruim pode piorar, a cabeça do sujeito caía para o meu lado, dando fortes esbarrões em meu ombro. Soltei uma gargalhada interna para manter a sanidade e desisti da leitura. Quando tive de saltar, deixei o livro cair em sua barriga, fazendo com que saltasse de susto para me ouvir dizer:
- Tá tudo tranqüilo? Com licença...
P.S. Na verdade não deixei o livro cair, mas o joguei com força considerável em cima dele. Porém, cortei essa parte da redação final por me parecer demasiado dramática. Entra aqui como adendo.

DEMASIADO AUTOEXPLICATIVO PARA SE INSERIR UM TÍTULO


Durante a visita a um apartamento, o proprietário desabafou:
- Você parece ser um rapaz tranqüilo, espero que tenha gostado e venha morar aqui. Pois o último inquilino que tive me deu um trabalho... rapaz, você nem imagina. Era traficante de drogas, mas desses graúdos, muito famoso e respeitado nesse meio. Que pesadelo... tá certo que ele era gente boa e nunca atrasou um mês sequer, mas é aquela coisa, de vez em quando ele tinha que "eliminar" alguém, me entende? He he he... O problema só acabou quando a polícia veio aqui e o matou bem aí nessa parede onde você está encostado... - nesse momento me afastei.
Não, eu não vou morar lá. Nem morto...

DIAGNÓSTICO RÁPIDO E PRECISO


O metrô se aproxima e resolvo correr para não perdê-lo, pois estava atrasado. De repente, o celular começa a tocar e decido atender em pleno movimento, confiando em minha magistral performance olímpica. Deixo o aparelho se espatifar no chão com toda a força. Atrás de mim, pude ouvir um rapaz comentar com o colega em tom sarcástico:
- Quebrou.
Ele tinha razão.

DA MEDITAÇÃO E DE SEUS BENEFÍCIOS NA VIDA MODERNA


Entro no táxi e informo o meu destino. Não demorou muito, percebi 4 ou 5 abelhas voando dentro do carro. Quando pensei em alertar o taxista, vi que os insetos pousavam em seu rosto, em sua cabeça completamente careca e voavam diante de sua vista. O homem não se abalava e nem esboçava nenhuma reação, continuava concentrado em sua missão de me levar até em casa.
Confesso que estava muito temeroso de, a qualquer momento, levar uma ferroada e ainda pagar por ela ao final da corrida. Porém, me senti desafiado e um tanto constrangido de tentar quebrar as regras estabelecidas dentro daquele veículo. Foi quando me lembrei das poucas aulas de meditação transcendental que fiz na vida e de que nunca as havia posto em prática em uma situação real.
O experimento foi quase um sucesso: ignorei as abelhas, que também pousavam em mim, mas cedi à pressão nos momentos finais, a dois quarteirões de casa. Ainda assim, os benefícios foram inegáveis: fiz uma caminhada em um belo final de tarde e economizei R$ 3,00.

P.S. Na verdade, cedi ao medo, mas "pressão" confere um tom de seriedade mais digno ao parágrafo (e talvez a minha reputação).

CONTOS DE NATAL


O Natal sempre me lembra de uma história um tanto inusitada, porém verídica. Estava em situação difícil, precisando de dinheiro, quando vi no jornal uma oferta de emprego temporário: bancar o Papai Noel em uma loja de brinquedos no Shopping Tijuca.
O desespero me fez sair correndo para fazer minha inscrição. Estava convicto de que seria o escolhido e de se tratar de uma tarefa simples para um cara versátil e dedicado como eu. Cheguei a encontrar um curso de Papai Noel, mas era caríssimo e não pensava em seguir essa carreira por muito tempo.
Ao chegar ao local das inscrições, a decepção: justamente naquele ano haviam modificado todas as regras. Nada de barbas postiças ou enchimento. O candidato deveria ser gordo e ter barba de verdade. Estava eliminado de forma humilhante.
E foi assim que perdi a chance de fazer parte da vida de centenas de crianças brasileiras.

ELEGÂNCIA VOCABULAR


Uma senhora me pergunta no metrô:
- É aqui que eu faço a baldeação para a linha 2?
- Não, a transferência é feita na Central. Transferência, ouviu?
Baldeação é uma palavra horrorosa.

DE COMO O FIM DO ANO PODE EXACERBAR O PENSAMENTO POSITIVO


Na fila do banco, o rapaz que estava atrás de mim conversava feliz no telefone:
- Está tudo ótimo! Só a Luiza que teve uma recaída, mas não foi nada muito grave. Tentou me matar e depois se atirar pela janela. Mas hoje está toda sorrisos.
Assim, traço a minha primeira meta para 2014: ser mais otimista.
Hoje, último dia do ano, dei uma tremenda topada na calçada e quase fui com tudo ao chão. Olhei para trás e vi três mulheres muito bonitas, que já esboçavam risadas. Tive de pensar rápido em uma maneira de não deixar minha imagem denegrida e me lembrei de uma técnica utilizada por quase 100% dos brasileiros, inclusive por mim mesmo. Depois de tropeçar, basta olhar para trás na direção do chão com expressão confusa ou ameaçadora. Pronto. Isso nos exime de qualquer responsabilidade acerca do ocorrido. A culpa, evidentemente, é do chão.
Conheço uma garota bonita e arrisco o convite para o cinema:
Eu: - Oi! Está em cartaz no CCBB uma mostra de filmes do Ingmar Bergman. Você já viu "O Sétimo Selo"?
Ela: - "Os Sete Morcegos"? Legal, ainda não vi!
Abortei a missão e fiquei me perguntando se devia tê-la chamado para uma boate...
Não sei porque, já que todos acertam meu nome de primeira, me identifiquei com a seguinte passagem do diário de Carlos Drummond:
"8 de Janeiro de 1962 - Entrevistado ao telefone por um repórter da 'Última Hora', sobre o atentado da extrema direita contra a sede da União Nacional de Estudantes, Alvaro Moreyra respondeu:
- Como dizia o meu amigo Remy de Gourmont, a estupidez é um estado de nascença.
Saiu no jornal, no dia seguinte:
- Como dizia o meu amigo Carlos Drummond...
Alvaro me telefona para contar o caso, e rimos bastante."
Uma simples viagem de metrô pode se tornar deveras tensa quando a mulher que está imprensada a seu lado se vira para outra e diz:
- Ai, miga, não estou passando bem... estou com uma ânsia de vômito...
não sei se vou segurar até Botafogo...
Dois homens discutindo violentamente na Av. Rio Branco:
- Rapá, tu para com isso rapá... tu tá me ofendendo... se tu não parar, vou te ameaçar de morte...
Pronto. Foi criada no Brasil a ameaça de ameaça de morte. Onde estão nossos juristas?
Na confeitaria a garçonete me pergunta:
- O que o senhor vai querer?
- Uma torrada e um suco de laranja.
- O senhor quer que ponha gelo e açúcar?
- Só açúcar, por favor.
Ela se vira para o balcão e grita:
- UM SUCO DE LARANJA SEM AÇÚCAR!!!!!!!

Experiência política.


Em meados de 2005, participei do meu primeiro enfrentamento político. Foi na ABL, onde foi realizado um evento sobre o escritor Joaquim Nabuco. Eu e um amigo chegamos e já nos dirigimos para o elevador, pois a primeira palestra estava para começar. Lá dentro, para quebrar o sempre constrangedor silêncio de elevador, comecei a conversar em voz alta com meu amigo e - para demonstrar o quanto estava atualizado - desci o malho no governo e na oposição. Meu violento discurso foi interrompido por dois discretos tapas que meu amigo deu em minhas costas com um olhar que denotava medo. Olhei para trás e vi que José Sarney, o primeiro palestrante, estava no elevador. Seguimos o resto do percurso no sempre constrangedor silêncio...
Ontem, uma vizinha cantou, em altos brados, músicas da Legião Urbana até de madrugada. Não bastasse o suplício, declarou:
- "Renato Russo foi o maior brasileiro de todos os tempos!"
Devemos perdoá-la, pois estava evidentemente bêbada. Mas será que depois da ressaca ela vai se lembrar de Castro Alves, Rui Barbosa, Santos Dumont, Machado de Assis etc?
Caminhava pelas ruas do centro da cidade quando ouvi um vendedor ambulante, dos veteranos, dar importante conselho ao principiante:
- Rapá, se roubar celular desse algum resultado, eu tava era rico...
Nada como a voz da experiência

domingo, julho 05, 2015

UMA CONVERSA DE LOUCO

- Aonde vamos? - perguntou o taxista, senhor de idade.

- Barão de Mesquita, por favor.

- Moleza, já morei por ali.

- Eu gosto, apesar dos casos de violência. Mas o Rio está todo assim, infelizmente.

- Nem me fale, meu filho, nem me fale. Sou ex-presidiário, já assaltei, matei, mas na minha época fazíamos a coisa com mais consciência, me entende?

Nesse momento comecei a tossir um pouco - um velho artifício que utilizo para ganhar tempo, quando a situação assim o requer.

- Não entendo, meu senhor, realmente não entendo.

- Entrei por adrenalina, sou de boa família. Mas depois que você se enrola com a Justiça, é melhor seguir em frente. Só que cumpri minha pena, casei já velho, juntei algumas economias e legalizei esse táxi, que também era roubado.

- O senhor deve ter muitas histórias para contar.

- Já pensei em escrever um livro, mas não posso. Ia ferrar com a vida de muita gente! Hehehehehehe. O senhor tem filhos ou deseja ter?

- Desejo ter, gosto de crianças.

- Pois tome cuidado, tome cuidado. Tenho uma teoria: a violência é provocada pela confluência da explosão demográfica com a era da informação. Minha filha, por exemplo, passa o dia inteiro no facebook. Não vou me admirar se amanhã souber que ela esfaqueou alguém...

- Chegamos! O senhor pode parar aqui. - eu disse impaciente.

- Mas estamos na Avenida Maracanã ainda. Não era até a Barão de Mesquita?

- Eu me lembrei de algo importante, vou aproveitar e passar no shopping antes. Obrigado, tenha uma boa noite!

- Boa noite! E olha, lembre-se sempre disso: tudo o que você precisa dar aos seus filhos é adrenalina! Adrenalina! - e foi embora.

Dediquei alguns anos de estudo específico sobre a educação de crianças. Neste quesito, posso afirmar que aquele taxista louco está na contramão.

sábado, novembro 17, 2012

Do Alto

Fitar o céu sereno e perceber
Na noite escura os brancos véus suaves.
Dos infinitos olhos receber
Olhares permeados por saudades.

E o mar que dizem ser tão traiçoeiro,
Com o canto de suas ondas me acalenta,
Dissipa, enfim, de mim, o nevoeiro

E não mais tão solerte se apresenta.

Mas chega um tempo em que já não se sabe,
De tanto contemplar no céu deidades,
De tanto olhar os olhos que lá estão;

Se a areia dessa praia branda e lisa
É realmente onde a gente pisa,
Daqui do alto o céu parece o chão...

Ilton Nogueira
O Passado

Eu tenho tanta coisa pra esquecer,
Tanta ferida aberta pra fechar,
Que essa tanta coisa que é você,
Onde será que posso despejar?

No mundo todo espaço não há assim;
Eu procurei na prosa e na poesia...
Mantive, então, você dentro de mim.
Pra ti, sabia, não mais existia...

E todo o meu passado é correnteza,
É vívida lembrança, é sutileza
Que passa sem deixar passar a dor.

É água cristalina de Hipocrene,
É fonte inesgotável, é perene,
Que banha a alma seca de amor!
 
Ilton Nogueira

quinta-feira, maio 24, 2012

Crueldade II

Do diário do Carlos Drummond de Andrade:

26 de novembro de 1952 - Aldo Borgatti, fotógrafo boêmio e hábil restaurador de livros e painéis, encontrou a antiga namorada, depois de muitos anos sem se verem. Acabada. Ao despedir-se, ela deu o endereço:

- Moro na Rua General Polidoro, aquela rua do cemitério. Apareça lá.

- Qual o número da cova? - perguntou Borgatti, quase sem sentir.

Tecnologicamente Atrasado

- Ilton, que maravilha! Finalmente você comprou um celular touch screen!

- Que nada, estou apenas limpando o visor do meu bom e velho aparelho. Continua
funcionando perfeitamente!

- Desisto, cara, você é tecnologicamente muito atrasado! - e saiu aborrecido.

Crueldade

Lady Narborough: Todo mundo que conheço diz que o senhor é muito cruel...
 
Lord Henry: É monstruoso como as pessoas, hoje em dia, dizem pelas costas coisas que são absolutas e inteiramente verdadeiras!

Oscar Wilde (O Retrato de Dorian Gray - 1890)

quarta-feira, março 21, 2012

No metrô

O segurança, ao me ver, diz:

- Estamos operando com intervalos irregulares.

- Mas em que época foram regulares? - respondi com um tom involuntariamente sarcástico.

- O que quis dizer é que as composições estão demorando para deixar as estações. Talvez você chegue atrasado (nesse momento, pensei ter visto um riso no canto de sua boca, mas foi minha imaginação).

Segui para a plataforma, que estava abarrotada de gente, conformado com o atraso. O meu atraso.

De repente, aquela terrível voz surge para dar o aviso aos pobres passageiros:

- A próxima composição está com um dos carros isolado. Favor dirigir-se para o carro mais próximo.

Eu já sabia o que ia acontecer e acho que o leitor já imagina. Não? Ok, vou contar.

O metrô chegou e o "carro isolado" parou exatamente na minha frente, no local que escolhi com tanto carinho para esperar o transporte.

Não tem problema. Corri para o carro mais próximo e de alguma forma entrei. Algumas pessoas me empurraram para dentro, não sei se com intuito de me ajudar ou apenas para elas mesmas aumentarem suas chances, que são sempre mínimas.

Acomodado, se é que se pode usar essa palavra no mesmo texto em que aparece "metrô", segui viagem. Aí começa outra fase interessante para os passageiros: a conversa alheia.

Você pode ser a pessoa mais discreta do mundo, mas se não estiver com fones de ouvido, vai escutar a conversa alheia. Nesse dia, devido a uma pane - ou "pânico", como quis um passageiro - em uma composição que estava parada na Central, as pessoas viajavam inquietas. E falavam. Não pude deixar de ouvir o espertinho enganando o chefe:

- Já abriu a loja? - disse o chefe pelo rádio.

- Ainda não, mas já tô chegano.

Veio a pergunta fatídica:

- Onde você está?

Aqui faço uma pausa para reflexão. Pelo que observei, 99% das pessoas que são desafiadas com esse simples questionamento apelam para a mentira. Sempre adiantam uma ou duas estações para dar aquela tranquilizada no chefe. Eu acho que tudo o que elas vão conseguir é um chefe ainda mais nervoso, perguntando coisas como "por que demorou tanto se você já estava aqui perto?". Mas voltemos ao diálogo:

- Estou aqui na Carioca já, - estávamos na Presidente Vargas - em der minutus eu chego!

É claro que não ia chegar. Ele não desistiu e ligou para um colega:

- Alcebíades? Tu já chegô mermão?

- Hoje num vô na loja não, mané. Vô buscar a encomenda lá em Marechal, esqueceu?

- Ah é, valeu!

Aí tive de descer. Ainda deu tempo de escutar dois rapazes planejando um "churrasco no play" antes da porta abrir. Segui feliz, e atrasado, para meus afazeres diários.

Agora repitam comigo: "Metrô Rio, a qualidade de vida anda aqui". Será mesmo?

quarta-feira, outubro 22, 2008

Quando a coisa fica russa

Era uma tarde fria e monótona. Havia saído do curso de língua russa, ministrado no Centro de Cultura Eslava, no bairro da Lapa. No meio do caminho, decidi ir a uma livraria comprar alguns livros e incluí entre eles um dicionário da língua russa, item indispensável ao aprendizado.

Dos cento e poucos livros que folheei, creio ter encontrado uns 10 muito interessantes. Tamanha jornada revelou-se cansativa e, após encontrar o dicionário, melhor seria não mais vagar por ali e rumar de volta para casa. Mais precisamente para o calor da minha cama.

Enfrentei a fila resignadamente, como se nada pudesse abalar um espírito forte e combativo como o meu, apesar de um certo desânimo. Estava enganado. Uma súbita convulsão se abateu no interior de minha alma após o seguinte diálogo travado com a atendente da livraria:

- O senhor vai levar um dicionário de russo? Nossa! Essa língua é muito difícil!

- Acho que o esforço valerá a pena. Sou um grande apreciador da literatura russa.

- Ah, eu sofri muito para ler "Crime e Castigo". Principalmente para ler os nomes dos personagens...

- Você leu "Crime e Castigo" no original? - cheguei até a pegar um papel para anotar o telefone dela (era muito bonita).

- Não! Eu li em português!

- Porra!- Não me contive, foi espontâneo.

- O que o senhor disse?

- Hã? Ah, Eu? Eu disse 'plorra'. Sim, "plorra" é uma palavra russa que significa "mal, ruim". Acho ruim você ter lido só em português, há poucas boas traduções nesta língua.

- Ah tá...

- Obrigado, boa tarde.

Nem sempre a espontaneidade pode ser considerada positiva, não é mesmo?

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Contos de Natal

2. De como um erro crasso da língua materna pode se transformar em uma experiência com o além.

Era um dia quente e tranqüilo na agitada Ipanema. O espírito natalino já se revelava nos sorrisos e na agitação do povo. O ar mudara. Aqueles que nunca foram tomados pelo espírito natalino, por favor, respirem fundo ao caminhar pelas ruas. Façam-no agora e entenderão este pobre aspirante a escritor.

O verão não perdoa. O sol parece ignorar a época festiva e desfere contra o Rio de Janeiro os seus mais poderosos raios. O calor é infernal. Foi nesse clima confuso, nesse misto de felicidade explícita e hostilidade, que decidi tomar uma limonada para aliviar o calor. Evidentemente, não imaginava eu que esta simples incursão a uma lanchonete traria uma das mais profundas experiências por mim já vividas.

Entediado, fiz meu pedido ao atendente e fiquei ali a contemplar os curiosos transeuntes agitados com o fim iminente. Calma, refiro-me ao fim do ano. Deixei-me, por um tempo, refletir sobre questões filosóficas de suma importância para a humanidade quando fui interrompido por uma conversa alheia travada em altos brados por dois rapazes. Disse um deles:

Rapá, num dava pra encará não... tinha uns trinta maluco... tudo veio pra cima de mim... eu corri, mas os cara me pegaro...

Evidentemente, estranhei aquela variação lingüística e a peculiar aplicação do plural. Ainda assim, achei que falavam português. Este foi o meu erro. Se tivesse considerado aquelas frases horrorosas como provindas de algum dialeto primitivo por mim totalmente ignorado, não teria passado os maus bocados que passei. O meu desespero começou com a seguinte proclamação:

Mermão os cara me batero muito... mas muito mermo... quando eu voltei a si...

A partir deste momento não escutei mais nada. Um pavor obsedante tomou conta de mim. O pobre coitado, ao dizer “quando eu voltei a si”, obviamente estava afirmando que ele não voltou nele, mas no outro. Apavorado com os espíritos que poderiam estar rondando aquele estabelecimento e, principalmente, com medo de ser possuído por um que se expressasse tão eloqüentemente quanto os dois rapazes, imediatamente saí de perto. O suco já estava pago e o pavor já havia me dominado. Sem titubear, resolvi abandonar a lanchonete sem esperar que minha bebida ficasse pronta.

Já na rua, comprei uma garrafa d’água de um ambulante e saciei a minha sede. Minha imaginação cuidou da parte do limão. Estava aliviado. Nunca havia chegado tão perto dessas coisas místicas e espirituais. Não sei em quem o pobre coitado, ao não voltar a ele, encarnou. O certo é que o sorteado não passará em nenhuma avaliação oral ou ortográfica.

Moral da História: Falar português errado é imoral.